26/06/2017

Agosto

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 Lembro-me detalhadamente do dia em que você se foi. Era agosto e fazia frio... Nós poderíamos nos aquecer junto à lareira, falando de coisas bobas e tomando café. Eu tomaria chá, pois detesto café, enquanto você ama. Mas preferimos gritar como loucos. Os motivos? Nós nem sequer tínhamos um. Era apenas a rotina exercendo sua função, mas isso te cansava — a mim também, admito — e então você chegou ao seu limite.
 Aquele cômodo vazio representava exatamente o meu ser. Olhava fixamente a porta pela qual você saiu e nunca mais entrou, como se fosse ela a culpada por eu ter te deixado escapar por entre meus dedos. Algum sábio deve ter dito que não devemos deixar ir quem nós amamos e outro deve ter discordado e dito que se você realmente ama alguém, não a deve prender em infelicidade. Ou talvez essa discussão tenha acontecido em minha cabeça, quando você partiu e me deixou para trás com minha culpa. 
 Sua ausência me fez ver o quanto sua presença me faz falta... Eu demorei a perceber que sua risada era o meu som favorito no mundo. Que a cor dos seus olhos era a mais bonita que eu já tinha visto. Que suas palavras faziam toda a diferença em meus dias. Dói confessar, mas demorei para entender que parte de você não existia sem mim e pior, eu não existia sem você.
 Agora eu vejo que fui feliz e não sabia. Que as pequenas coisas de nós dois eram tudo para mim. Eu precisei ficar sem nada para ver que tinha tudo. Eu precisei perder você para achar a mim. Agora eu vago pelo escuro em caminhos tortuosos da vida esperando que, numa esquina ou noutra, nos esbarremos. Eu me pego sonhando acordado com xícaras de chá e abraços fortes em frente à lareira, esperando te ter novamente no próximo agosto de frio.

Um comentário

  1. É muito ruim perdermos uma coisa ou uma pessoa que nem sequer imaginaríamos que faria tanta falta em nossa vida, as vezes ficamos tão imersos naquele momento tão bom que as hipóteses de não tê-los mais nem passam pela nossa cabeça.

    pile of roses

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