13/04/2017

jane doe

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 Se não fora o destino, o quê o levara àquele estabelecimento naquele dia? O tempo estava cinza, assim como seu suéter e ele apenas desejava um lugar tranquilo para desfrutar de um café forte e quente naquela cidade caoticamente grande. Avistou um bistrô de esquina e seguiu até lá, com o cigarro aceso entre os dedos longos e gélidos. Café e cigarros eram a salvação para aquele cantor falido e sonhador. Antes de entrar, deu o último trago e pisoteou o fumo na calçada.
 O sino na porta soou quando ele passou por ela, anunciando sua presença e ele tratou de sentar-se despreocupadamente num dos bancos do balcão. Estava à procura de alguém para atendê-lo quando sua atenção foi capturada por um par de belos olhos azuis. Eram como duas lagoas transparentes, brilhantes e convidativas. O rapaz levou algum tempo analisando a garota que os possuía e mesmo com a expressão tediosa, ainda era a coisa mais linda que ele já tinha visto. Só notou que estava boquiaberto quando a viu caminhar em sua direção. "O que eu direi?", se perguntou mentalmente e logo em seguida seu subconsciente se fez ouvir: "O que ela dirá?".
 — Boa tarde. Posso anotar seu pedido? — foi o que ela perguntou e ele franziu a testa, admirando mais de perto aqueles olhos e percebendo algumas suaves e sutis sardas acima de seu nariz, simplesmente adoráveis.
 Era garçonete, mas não usava um uniforme e consequentemente não tinha seu nome gravado na camisa que usava. Ele queria poder colocar um nome naquele lindo rosto. Talvez devesse esperar que todos deixassem o lugar e tentar saber mais sobre ela... Talvez devesse fazê-lo naquele instante... Talvez...
 — Senhor? — ela tombou a cabeça para o lado, analisando-o e um dos vários cachos dourados que pendiam de sua cabeça caiu-lhe sobre a testa. 
 — Oh, sim — respondeu ele, embaraçado, balançando a cabeça como se pudesse afastar seus pensamentos. — Um café forte, por favor.
 Ela sequer anotou o pedido, apenas sorriu e seguiu para trás do balcão. Para ele, aquela criatura ficava ainda mais surpreendentemente magnífica quando sorria. Estava decidido, ele tinha que conquistar aquela garota, tinha de ser o motivo para seus sorrisos.
 Não demorou muito mais que cinco minutos para que ela voltasse com seu café. O deixou, sorriu novamente e recostou-se ao balcão ao seu lado, como se realmente esperasse que ele falasse com ela. "O que eu digo?", ele gritava em sua mente, mas a serenidade no rosto dela fez com que o silêncio ficasse confortável. Ela era a melhor companhia silenciosa da qual ele já desfrutara.
 Quando acabou seu café, deixou na mesa o dinheiro, agradeceu e se levantou, indo embora. Não a olhou em despedida, pois sabia que se o fizesse, não conseguiria ir. Na rua, ainda não podia esquecer o olhar dela, então, prometeu a si mesmo que escreveria uma canção e no dia seguinte, cantaria para ela e ganharia seu coração.
 Naquela noite ele compôs uma música sobre uma desconhecida — Jane Doe — que poderia ser sua princesa, se lhe deixasse ser seu príncipe e foi dormir. A viu em seus sonhos, ainda sem nome, mas com aquela beleza arrasadora que o arrebatara.
 Dormiu apaixonado, acordou racional. Pela manhã, saiu para tomar café. Não no bistrô com a elegante garota de olhar forte, talvez nunca mais pisasse naquele lugar. Como poderia ter sido tolo à ponto de pensar em ganhar o coração de uma desconhecida? O que ela veria num fracassado como ele? Aqueles olhos azuis o haviam hipnotizado? Riu-se solitário na calçada. Ainda queria saber seu nome, é verdade, mas se fosse mesmo o destino, eles iriam se encontrar de novo.


 Esse textinho é tão antigo... O achei perdido por aqui e pensei "Por que não?"♥ Principalmente depois de perceber que, de certo modo, inseri nele uma característica que estudei na escrita da Clarice Lispector: epifania, um momento no qual, de repente, os sentimentos do personagem mudam drasticamente. O texto é baseado tanto na música Jane Doe da Never Shout Never, quanto na história de como ela foi escrita. 

3 comentários

  1. Oi! :)
    Como você esteve nesse último ano que passou (ainda que seja um pouco tarde para dizer isso)? Ahah, é ótimo voltar para cá e reencontrar pessoas que eu costumava acompanhar.
    Se minha visita ao seu blog já foi nostálgica, o sentimento só ficou mais forte ainda depois de ler seu texto. Lembro-me de algum texto sobre essa música, mas não tenho certeza de onde li. Não estou em condições de comparar sua escrita de hoje em dia com as de antigamente, mas devo dizer que ela é muito boa. Eu gosto do jeito que mantém a coerência ao longo da narrativa e o jeito como me faz querer ler mais. Sua escrita é ótima e estou no aguardo de mais textos :)

    xx

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  2. oi, jheni, tudo bem?
    primeiramente, precisava vir aqui pra dizer que gosto muito da sua escrita, você escreve maravilhosamente bem! já revirei suas palavras por aqui.

    segundo: resolvi manter o blog em privado e gostaria que você tivesse acesso, mas pra isso eu precisaria do seu e-mail. me mande uma mensagem pra esse e-mail aqui), qualquer coisa ;))

    beijos!

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  3. A forma que você escreve nos prende e nos motiva a continuar. Acredito que daria um ótimo filme com esse enredo,mesmo com a epifania repentina seria interessante saber como seria essa "mudança" drástica nos sentimentos. E estou a me perguntar,como seria conquistar o coração de uma desconhecida? Seria estranho? Ou amor a primeira vista?


    ♡♡♡♡♡
    Até logo.
    meu bloguinho

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