22/03/2017

[contract]: 1. Convite

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Essa cidade do meio-oeste vai sentir sua falta,
Apenas vá em frente e faça dar certo.
Em mais ou menos um ano você vai ter tudo pronto,
Esses sonhos de cidade grande são o que você é.
— Never Shout Never, "Big City Dreams".

 Talvez eu nunca fosse me acostumar com o trânsito intenso de pessoas e carros em Nova York, principalmente no sábado à noite, mas com certeza não trocaria aquela cidade por nenhuma outra no mundo. Ali era o berço dos meus sonhos, onde tudo começara há poucos anos atrás.
 Quando cheguei na cidade, vinda do Brasil, nunca poderia imaginar que as coisas dariam tão certo para mim. Tinha acabado a escola há pouco tempo e tudo o que eu tinha era minha vontade, um apartamento apertado no subúrbio pago por meus pais e palavras escritas que eu queria mostrar ao mundo. Quem diria que era tudo o que eu precisava? 
 Naquele dia em especial eu havia marcado para fazer algo com Hanna, que não era apenas minha agente literária, mas uma grande amiga que acreditou em mim quando eu ainda era uma escritora iniciante. Ela era pouco mais velha que eu, era nova na editora e arriscou seu emprego, apostando em minhas obras. Se não fosse por ela, talvez eu estivesse estagiando em uma revista ou coisa do tipo e não comemorando mais um best-seller em primeiro lugar no The New York Times.
 Cheguei alguns minutos atrasada no barzinho em que tínhamos combinado, por conta do engarrafamento e ainda assim, Hanna ainda não havia chegado. Ela adorava entradas impactantes, então jamais era pontual. Eu me sentia desconfortável no meio daquele barulho intenso e pessoas desconhecidas prontas para perderem sua sobriedade, mas já que minha ideia de comemorar em casa tinha sido reprovada, escolhi uma mesa mais reservada e me sentei, esperando que ela chegasse logo.
 — Com licença senhorita — um rapaz gritou para ser ouvido e eu ergui meu olhar até ele, sobressaltada, para então notar que era um garçom do estabelecimento. — Uma bebida doce com baixo teor alcoólico.
 Ele colocou uma taça com líquido rosa, canudo vermelho e um morango decorativo à minha frente na mesa e eu franzi a testa para o mesmo.
 — Eu ainda não pedi nada — me adiantei e ele sorriu.
 — Uma cortesia do rapaz ali para a senhorita — ele deu espaço para que eu visse no pub um cara de cabelos acobreados e um sorriso simpático nos lábios, que ergueu seu copo para mim em um cumprimento.
 Francamente, aquele tipo de abordagem era tão clichê... E eu entendia de clichês, era uma romancista, afinal. Levantei a taça para ele em resposta, apenas honrando meus bons modos, agradeci ao garçom, que se foi e assim que o fez, me levantei com minha bebida em mãos, caminhando firmemente até o rapaz que me tinha enviado a mesma.
 — Olá — forcei um meio sorriso, colocando a taça junto ao seu copode whisky, no balcão. — Obrigada pela bebida, mas não posso aceitar. Com licença...
 — Ei! — exclamou e me segurou pelo braço, mas me soltou assim que viu minha expressão nem um pouco amigável. — Me desculpe. Meu nome é Daniel e eu te reconheci da foto em seu livro, One Chance — ele disse e eu fiquei pasma por diversas razões e envergonhada por um milhão de outras. — Um personagem que faço no teatro é baseado no Will, de sua autoria.
 — Oh — murmurei sem graça e surpresa. — Prazer, Ana Amália.
 — Daniel Fisher — disse simples, dando um gole em sua bebida e indicou que me sentasse no banco ao seu lado, o que contrariada, fiz.
 — Então, você é ator? — puxei um assunto, apenas para não manter aquele silêncio constrangedor, mas ter que gritar em seu ouvido não era exatamente reconfortante.
 — Sim. Nova York é a cidade dos sonhos, não? — ele sorriu, os olhos brilhando. — A Broadway é o meu, mas por enquanto estou numa pequena companhia.
 — Uma pequena companhia que te obriga a ler o meu romance, hein? — ri, apoiando o cotovelo no balcão e o rosto na mão e ele me acompanhou.
 — No começo era mesmo uma obrigação, mas o livro é ótimo! Comprei todos os outros, só preciso de um tempo para ler — ele disse e eu senti minhas bochechas esquentarem. 
 — Fico feliz em ouvir isto. Eu gostaria muito de vê-lo atuar. Will é o meu personagem favorito — disse e ele tateou o bolso traseiro do jeans que usava, tirando de lá um papel que estendeu para mim.
 — Aqui está o cartão da companhia. Aí tem os horários, preços e atrás, meu número. Vou adorar te ver por lá, aliás, o elenco todo vai.
 — Obrigada, eu com certeza vou aparecer — digo, guardando o mesmo no bolso da minha camisa.
 Todos os dias eu era abordada por leitores dos romances que escrevia, mas nunca iria me acostumar com as pessoas me reconhecendo, me elogiando e com toda a admiração que reservavam pra mim. Era desconcertante ver que o que me fazia feliz, de certa forma acabava influenciando na felicidade de outras pessoas também, que eu sequer conhecia.
 Ficamos em silêncio por alguns minutos, até eu ver entrar no estabelecimento uma garota ruiva de peep toes altíssimos, vestido preto e lábios tingidos de vermelho. Hanna. Como sempre, seu guarda-roupas fazia o meu parecer repleto de flanelas velhas... Enquanto ela estava toda produzida eu vestia uma camisa jeans, calça vermelha e All Stars. Ela parecia ter uma conversa séria no celular, mas vê-la me deu certo alívio. Conversar com rapazes interessantes, atraentes e desconhecidos em bares não era algo que eu fazia com frequência e eu estava louca para escapar...
 — Minha amiga chegou. Obrigada pela bebida, até mais — disse e ele me cumprimentou com dois beijos nas faces coradas.
 — A gente se vê — completou e eu peguei novamente a bebida antes de seguir pra encontrar com Hanna.
 — Hanna! — gritei empolgada e ela finalizou a ligação, sorrindo para mim antes de me abraçar delicadamente.
 — Ana! — gritou na mesma entonação e seu sotaque americano para meu nome me fez rir, como sempre fazia. — Aí está a minha garota. Grande dia, não? — concordei com a cabeça, mas ela logo deixou que sua expressão passasse de contente à trágica, os ombros desabando. — Oh, céus... Eu preciso de uma margarita! Onde nos sentamos?
 Guiei-a até a mesa que tinha escolhido outrora e ela pendurou a bolsa na cadeira, bufando de forma exausta.
 — Problemas de trabalho? — perguntei e ela deu de ombros se largando na cadeira.
 — Problemas de sexo, Ana... De sexo. — disse e eu revirei os olhos, constrangida. — Tem esse cara que não larga do meu pé, sendo que foi algo completamente casual... Isso é um saco!
 De repente sua expressão ficou extremamente maliciosa e um sorriso repuxou o canto esquerdo de seus lábios pra cima. Eu pressentia que ela iria soltar um monte de besteiras pela boca a qualquer segundo e logo pude comprovar por mim mesma:
 — Sexo casual é ótimo, até mesmo para uma garota puritana como você. Tem tempos que você não sai com alguém, então que tal você consolar o cara que eu dispensei? Faria bem para todos nós.
 — Olha o que está dizendo, Hanna! — elevei o tom da voz, zangada. — Por Deus! Você não se cansa de ficar me empurrando homem? O último que você colocou na minha reta não durou nem duas semanas.
 — Meu amor, nos dias de hoje os relacionamentos que duram mais de duas semanas são os dos seus livros, apenas — disse e eu rolei os olhos nas pálpebras novamente. — Pra desencalhar de vez, você precisa de um Will, só que da vida real — completou, citando o personagem principal da minha mais aclamada série romântica.
 — Não existe homem como o Will, por isso ele é fictício.
 — Ana, você vai ver — disse e apontou o indicador de unha cuidadosamente feita para mim. —, quando você menos esperar vai encontrar o Will da sua vida e espero que não estrague tudo como sempre.
 — Vou estar esperando por esse dia, Han... Vou estar esperando.
 — Sabe o que eu estava esperando? Te encontrar aqui com cara de tédio, mas você me parece confortável. Pegou até uma bebida! — ela riu, apontando o copo em minhas mãos e eu aproveitei para dar um gole na mesma. Era uma delícia!
 — Na verdade, eu não peguei uma bebida... — disse e me virei para o pub à procura do rapaz que conhecera alguns minutos atrás, mas ele não estava mais lá. Franzi a testa, mas Hanna logo me chamou a atenção.
 — Hoje é nossa noite garota. Antes de nos jogarmos em mais trabalho, vamos comemorar!
 Hanna pediu uma rodada de margaritas que teve de beber sozinha, já que eu estava dirigindo. Ela não se importou nem um pouco. Ainda tentou me obrigar a dançar, mas eu era uma negação naquilo e voltei à mesa depois de cinco minutos, me sentindo uma velha de oitenta anos, enquanto ela dançava loucamente com um carinha qualquer.
 Eram 23h30 e eu a estava deixando em casa, falando coisas desconexas e mal se sustentando em pé. A deixei na cama e voltei ao carro indo para minha própria casa, a apenas algumas quadras de distância da sua. Entrei e deixei minhas coisas na mesinha ao lado da porta, descalçando os tênis. Realmente eu nunca seria uma pessoa de me embebedar e chamar aquilo de diversão. Hanna sempre o faria por nós duas.
 Preparei um café para meu fim de noite e fui ao escritório, lugar que eu visitava mais que meu próprio quarto. Prendi os cabelos médios num coque desajeitado e coloquei os óculos de descanso, resolvendo ver meus e-mails que estavam acumulando por falta de tempo de ler. Corri os olhos pela página. Recibos, recados de fãs, coisas da editora e por fim, um com remetente inesperado: a escola em que cursara o colegial em São Paulo. Franzi o cenho, tombando a cabeça para o lado e, curiosa, cliquei.

"Senhorita Ana Amália,
 É com grande entusiasmo que a convidamos à participar da 11ª reunião de alunos do Colégio São José, referente à turma de 2004. No dia 25 de Agosto nos reuniremos para um almoço cheio de recordações no qual terá a oportunidade de rever amigos, colegas e professores que fizeram parte de sua vida acadêmica. Contamos com sua presença para este memorável encontro.
Grata, a direção."

 Li e reli o pequeno recado incontáveis vezes, pasma. Eu poderia simplesmente ignorá-lo e não me faria mal algum, mas algo naquelas palavras me parecia tentador demais... Rever os meus amigos, minha família e ver o que mudou desde que eu deixara tudo para trás seria ótimo, mas não era o meu maior objetivo. Eu queria ver o quanto as pessoas que disseram que eu não chegaria à lugar algum evoluíram e mostrar até onde eu tinha chegado. Talvez fosse arrogância da minha parte, mas eu simplesmente não conseguia tirar aquele desejo da cabeça.
 Para isto minha estadia na cidade teria de ser muito bem pensada... Mas, puta merda! Aquele encontro seria dali a três dias e como Hanna sempre fazia questão de me lembrar, tudo o que eu tinha para mostrar era minha vida profissional perfeita... O quanto eu tinha mudado desde o colégio em outros aspectos?
 Suspirei e, ao olhar meus livros em cima da mesa, lembrei do cara do bar. Tirei seu cartão do bolso e o encarei, naquele instante formulando uma ideia louca que talvez desse certo. Com um pequeno empurrãozinho, eu voltaria ao Brasil com a vida perfeita para exibir.


 Olá, queridos. Espero que gostem desse primeiro capítulo. Eu dificilmente escrevo sobre personagens brasileiros, ainda mais como protagonistas, mas  admito que adorei. Volto logo com atualizações, então não esqueçam de deixar suas opiniões, ok? Beijos. ♥

2 comentários

  1. Eu adorei, você escreve tão bem! O jeito como descreve as cenas e os personagens é maravilhoso. Eu estava esperando o primeiro capítulo desde que li a sinopse e agora eu estou amando a história ainda mais. Amei todos os personagens, principalmente a Hanna haha <3
    Espero que continue a escrever, a história está incrível, conseguiu me envolver totalmente logo no comecinho.

    Até mais~

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  2. Hey, o que foi isso? Eu simplesmente amei cada palavra e o modo que para mim elas pareciam dançar ao som da músicas que eu estou ouvindo... eu simplesmente amei <3 espero que continue <3

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