22/03/2017

[contract]: 1. Convite

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Essa cidade do meio-oeste vai sentir sua falta,
Apenas vá em frente e faça dar certo.
Em mais ou menos um ano você vai ter tudo pronto,
Esses sonhos de cidade grande são o que você é.
— Never Shout Never, "Big City Dreams".

 Talvez eu nunca fosse me acostumar com o trânsito intenso de pessoas e carros em Nova York, principalmente no sábado à noite, mas com certeza não trocaria aquela cidade por nenhuma outra no mundo. Ali era o berço dos meus sonhos, onde tudo começara há poucos anos atrás.
 Quando cheguei na cidade, vinda do Brasil, nunca poderia imaginar que as coisas dariam tão certo para mim. Tinha acabado a escola há pouco tempo e tudo o que eu tinha era minha vontade, um apartamento apertado no subúrbio pago por meus pais e palavras escritas que eu queria mostrar ao mundo. Quem diria que era tudo o que eu precisava? 
 Naquele dia em especial eu havia marcado para fazer algo com Hanna, que não era apenas minha agente literária, mas uma grande amiga que acreditou em mim quando eu ainda era uma escritora iniciante. Ela era pouco mais velha que eu, era nova na editora e arriscou seu emprego, apostando em minhas obras. Se não fosse por ela, talvez eu estivesse estagiando em uma revista ou coisa do tipo e não comemorando mais um best-seller em primeiro lugar no The New York Times.
 Cheguei alguns minutos atrasada no barzinho em que tínhamos combinado, por conta do engarrafamento e ainda assim, Hanna ainda não havia chegado. Ela adorava entradas impactantes, então jamais era pontual. Eu me sentia desconfortável no meio daquele barulho intenso e pessoas desconhecidas prontas para perderem sua sobriedade, mas já que minha ideia de comemorar em casa tinha sido reprovada, escolhi uma mesa mais reservada e me sentei, esperando que ela chegasse logo.

11/03/2017

Estúpida

|| || 8 comentários:
 Ela gostava de caminhar sozinha pela manhã, gostava de sair cedo para sentir o sereno no rosto, gostava de como as gotículas minúsculas pousavam nos cabelos desgrenhados. Andava sem rumo, o cigarro aceso nos lábios e o moletom cinza com buracos nas mangas escondendo as mãos gélidas. Todos os dias fazia o mesmo, mas nem um dia era igual a outro, a rádio que ouvia nos fones variava as músicas e as ruas pouco movimentadas variavam as pessoas. E foi numa de suas caminhadas matinais que ela o viu. Tinha cabelos ruivos parcialmente escondidos no capuz preto, algumas mechas caindo sobre os olhos, sardas acima do nariz avermelhado pelo frio e oh, aqueles olhos verdes que eram como um desafio, um convite irrecusável à pecar. Ela o viu. De todas as pessoas na rua, ela o viu e sua vida inteira mudou por causa daquele momento. Ele também a viu, mas não como ela o vira, era diferente, menos intenso, menos amor. Ah, garota… Pobre garota estúpida. Se ela soubesse como se apaixonaria, como se entregaria, como ele  a satisfaria e por fim, partiria, não teria escolhido justo aquela rua, naquele dia. Ele se aproximou, perguntando se ela tinha cigarros e, como era seu último, eles dividiram-no. Dividiram tanto dali para frente. O guarda-chuva, a cama, sonhos, decepções, o adeus. Então ela deixou de caminhar sozinha pela manhã, de sair cedo só para sentir o sereno no rosto e as gotículas pousarem nos cabelos desgrenhados. Evitou aquela rua, mas era tarde demais.